domingo, 1 de junho de 2008

Xenofobia

A velha, o livro, cinco meninos, mais um.

Lá estava eu, sentada no banco da praça monopolizado por mim nas manhãs de domingo. Os cabelos brancos entregavam a idade.Geralmente as ações costumavam se repetir. Sentar, pegar o livro da velha bolsa, deslizar minhas mãos por ele podendo quase pegar as palavras da capa com minhas próprias mãos, fareja-lo deliberadamente, e acredite ou não, todos os dias desvendo um odor novo. Era uma manhã gelada, fria, os casacos me deixavam mais pesada. O outono se despedia e o inverno batia à porta. A cena de bela tornou-se cruel, postavam-se ali cinco rapazes contra um. Os cinco agiam indiferente aos olhares das gentes, entorpecidos, molestados pela fúria, tomados pela raiva, agrediam simultaneamente o menino de rua, pobre, fedido, solitário. Num ato de desespero, fechei o livro com força, fiquei estática diante aquela ação de pura crueldade. Mais que a violência, a doença da cidade me comove, porque a doença não é coisa distante, não respeita vidros fechados nem casas trancadas, a doença finca-se como um inimigo íntimo. Quando a cidade expõe suas feridas íntimas, é a doença da loucura que mais me afeta, os que falam sozinhos, os que choram alto, os que dançam no asfalto, os que não lembram o próprio nome, os violados, os possuídos, os que furam os olhos dos gatos, os obscenos, os que cospem na cara, os esquecidos, os invisíveis, os outros. No caso, o que nutria os cinco doentes, era o medo excessivo e descontrolado ao desconhecido ou diferente. Dispersos pela cidade, aqueles cinco são parte do tumor infame que consome nossa sociedade, os vermes, os ratos dos esgotos.

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